Te tornaste naquilo que eu mais temia

Chego em casa e vejo o teu estado. De perna cruzada, de cerveja numa mão e o comando da TV noutra, assistindo o jogo de futebol.

Antes não gostavas de futebol. Gostavas de passear comigo, de te aventurar em trios, de ir para sítios onde nunca tínhamos ido, de viajar, de ir ao cinema, de jantar fora para sair da rotina. Dantes odiavas álcool. Eu te admirava imenso por isso. Não tinhas vícios – os que eu tanto temia – nem davas importância ao que não era necessário. Davas-me atenção, ajudavas-me em tudo e do nada tudo isso parou e tu mudaste. E quando mudaste te tornaste naquilo que eu mais temia. Te tornaste naquilo que eu sempre disse que não queria para a minha vida.

Eu sofria por ter um pai bêbedo em casa. Via a minha mãe ficar em casa sozinha, enquanto ele se embebedava no café e simplesmente nem se lembrava da existência dela. Via o quão desesperada ficava quando sabia que ele estava alcoolizado. Via o quão cansada ficava de ter de fazer tudo sozinha. E sofri tudo isso. Sofria quando ele chegava e me batia, me amaldiçoava, me dizia palavrões e tantas outras coisas que me magoavam profundamente. E sofria quando ele me mandava fazer tudo e mais alguma coisa. E por ter sofrido tanto, quando te encontrei me gabei, dizendo que tinha o melhor homem do mundo, quando ingénua nunca pensei que fosses mudar.

Hoje és tal igual o meu pai. Quando olho para ti vejo-o. A sua imagem demente, os olhos vermelhos devido à bebida, o cheiro a álcool e a fumo entranhado nas tuas roupas e na tua boca. Vejo-o em ti, como nunca antes sonhara que veria.

Quão ingénua fui eu? Porque mereço passar por tudo isto novamente?

Me olho no espelho e vejo minha mãe. A que fica em casa com os filhos, a que é obrigada a se deitar ao lado de alguém que só a sabe magoar, a que tem obrigação de fazer tudo, a que casou apaixonada e se amaldiçoava todos os dias por o ter feito. Me vejo nela. Vejo o meu pior pesadelo se tornar real. E és tu agora que me fazes sofrer. E és tu agora que me mandas fazer tudo. E és tu agora que me bates. E és tu agora que me chamas nomes e me deixas sozinha.

És tudo aquilo que eu temia. És tudo aquilo que eu não queria. E és tu agora que eu tenho.

E me vejo agora na situação que um dia vivi: ir embora com os meus filhos e afasta-los do pai ou ficar e deixá-los crescer da forma que eu cresci?

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10 Comentários

  1. Que murro no estômago! E o mais triste é que, infelizmente, é uma realidade de várias famílias. E ninguém devia passar por algo assim

    r: Acredito que sim 🙂 nunca fiz teatro, nem tenho qualquer jeito, na realidade, mas acho que é mesmo uma arte fascinante! Talvez um dia consigas voltar a representar
    Muito obrigada *.*

    Beijinhos*

    1. Infelizmente mais famílias do que imaginamos.

      Talvez, quem sabe?

  2. Sinceramente não sei o que dizer, é uma situação tão triste e cada vez mais real nos dias de hoje! Não te rebaixes por ninguém, mereces muito mais que isto…

    Beijinhos, Hellen ❤

    1. Meia realidade do texto é minha, mas a outra metade não é. Infelizmente várias famílias passam por isto. Beijinhos ❤️

  3. Obrigado 🙂

    Ohn 🙁 Que dor no peito ao ler este teu texto!! Às vezes as pessoas tornam-se naquilo que diriam nunca ser. Talvez, na grande maioria das vezes, por não se sentirem bem com elas próprias 🙁

    1. Exato! Não podemos dizer nunca pois o nunca por vezes está ao virar da esquina. Infelizmente é um texto sobre várias famílias por aí. Beijinhos

  4. Sempre ouvi dizer que acabamos por encontrar o nossa pai ou a nossa mãe na relação. Não sei se é verdade, mas parece que neste caso se aplica. Sem dúvida que o melhor é ir embora com os filhos, para eles não passarem pelo menos :l
    Gostei imenso <3

    Beijinhos <3

    1. Também não sei. Sim, partilho da mesma opinião de sair de casa com os filhos, se estivesse na mesma situação. Que bom que gostaste! ❤️ Beijinhos

  5. Talita Paschoal says: Responder

    *regulando a respiração*
    Só tenho a resposta da pergunta final, pois nada mais hei de conseguir dizer além dessa, ires embora com teus filhos e deixá-lo, pois tens a chance de fazer com que os teus filhos cresçam de modo diferente do que foste e se demorares muito podes não mais estar entre nós.

    1. Exato! Isso eu nem pensava duas vezes. É um texto que nos corta a respiração. Beijinhos 💜

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